Setembro Amarelo: origem e reflexões.



Em 2003 a OMS (Organização Mundial da Saúde) instituiu o dia 10 de setembro para ser o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, e todo este mês é voltado para a conscientização e a prevenção desta difícil questão que assola o Brasil e o mundo. Para homenagear o mês de setembro, como referência à prevenção do suicídio estabeleceu-se uma cor, o amarelo. No Brasil este projeto foi adotado em parceria com o Centro de valorização à Vida (CVV), o CFM (Conselho Federal de Medicina) e a ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria), todos voltados para a conscientização, prevenção e visibilidade ao tema tão delicado.

Porém não vamos apontar números nem índices aqui, apesar de serem importantes, porém pouco discorrem sobre emoções; falaremos sobre a cor, o amarelo. Mike Emme, era um jovem americano, extremamente habilidoso na mecânica, a sua paixão por carros o fez restaurar um Mustang 68, ao qual pintou de amarelo. Esta era sua marca, seu passatempo, dirigir um simples Mustang amarelo. Porém não houve tempo, nem possibilidade de ajuda, pois Mike suicidou-se aos 17 anos, em 1994. O amarelo ficou conhecido a partir de seu funeral, onde amigos e parentes escreviam em fitas desta cor a frase, “Se precisar, peça ajuda”. Tal ato expandiu-se pelo país e a cor foi adotada pela ONU, em homenagem a Mike, para representar e ilustrar esta campanha.

Me pergunto se Mike não teria pintado seu Mustang de amarelo por algum motivo subjetivo, se de algum modo queria ser visto ou notado, se pedia ajuda. Nem sempre somos tão claros emotivamente, nós seres humanos tendemos a ocultar parcelas de nós mesmos, alguns deixam transparecer as necessidades em pequenos detalhes. Entretanto nossos meios subjetivos nem sempre nos favorecem, às vezes reprimem e deprimem partes que não deixamos que conheçam a luz, tão pouco lhes é ofertada tal possibilidade, assim, criamos um lugar longe do sol, e ali depositamos as parcelas de escuridão que todos nós possuímos.

O suicídio é uma realidade para todos, querendo ou não o enxergar, é uma possibilidade obscura, como fumaça tênue, que às vezes apresenta-se ligeiramente como um vislumbre ao canto dos olhos, num espaço inculto da mente. Ao permanecer neste espaço, dando ênfase ao nebuloso, prendemo-nos e ficamos encarcerados, esquecemos da vida, do dia e da noite, até não pertencermos mais ao ciclo terreno.

Não somos como o dourado do sol que adentra janelas sem pedir licença, ou como as margaridas que simplesmente nascem exalando o amarelo na primavera, e não nos é dito se são felizes ou não, apenas brotam como são. A comunicação tão interligada da natureza, de certa forma, nos foi limitada, pois é natural para as árvores de uma floresta que se comuniquem, troquem essência constantemente, ainda mais quando uma delas adoece, todas ao redor se prostam a ceder nutrientes. Seria tão difícil para nós estarmos atentos às pessoas ao nosso redor? O Setembro Amarelo nos convida a adentrar novamente esse ecossistema humano em uma comunicação interligada, um sistema de trocas que não nos deixe adoecer, que nos fortaleça, e nos instiga a termos sensibilidade conosco e com o próximo.

Atentarmo-nos mais ao próximo, como um todo, seria um convite apropriado, pois frequentemente palavras não são suficientes para transmitir nossas necessidades. Conheço bem, no caminhar das letras de uma poetisa, Florbela Espanca, que as palavras não lhe foram suficientes para ser compreendida, assim como a decisão de Mike ao pintar o carro recém-restaurado. Ela narrava de fato, em seu tempo, uma realidade incompatível com o mundo, mesclando-se cada vez mais à morte, dor e luto, que viria de fato tirar-lhe a vida. Pergunto-me como permitiram-na permanecer, ou se sequer notaram, pelas palavras da poetisa portuguesa, sempre pondo-se em névoas dentro de seu castelo, onde não tocava a alegria. Talvez o outro transmita sua dor de múltiplas formas.

Criamos meios comunicativos cada vez mais líquidos e vagos, estranhamente em uma época adoecida, necessitada de empatia. O lema do funeral de Mike Emme continua muito útil, “Se precisar, peça ajuda”, porém acrescentaria “Se puder, ofereça antes”, pois se propor à sensibilidade permite sutilmente perceber de forma mais tátil a questão. Interessar-se pelo próximo, sem que seja necessário estender uma bandeira vibrante a pedido de ajuda. Rodear-se de companhia, pois de fato não sobrevivemos sós, somos seres carentes de comunicação e empatia, o que é efetivamente inerente a nossa natureza, pois é o que nos move e nos dá energia.

O amarelo de setembro é isto; a luz do sol, veloz como um Mustang e sua fresca brisa, deliciosa e poderosa como a vida. É o dia que invade e ilumina a todos, surpreendendo com a espontaneidade das paisagens, e sua potência vitalícia. Reflete-se nos quatro cantos, até nos sonhos, aventuras e fantasias. Se pudesse falar, o amarelo de setembro diria: “comuniquem-se, demonstre-se sem medo”. Talvez Mike só precisasse conversar, entre uma ou duas das poucas voltas que foi possível aventurar-se, de alguém para lhe mostrar o quanto o mundo é singelo, possivelmente deparar-se com algumas margaridas florescendo a luz do dia, no seu Mustang, curiosamente pintado de amarelo.

 

Erick Taranto, estudante no curso de História na PUC-Rio e estagiário no setor de comunicação e cultura da Pastoral Universitária.

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