Juventudes, voluntariado universitário e formação integral à luz dos valores humanos e cristãos.



Falar desse tema me permite ocupar dois lugares de fala muito especiais: o de gestora de um programa de voluntariado universitário e o de voluntária. A experiência social do voluntariado trouxe à minha formação cidadã e profissional ganhos irreversíveis. A imagem de uma licencianda em Ciências Sociais mediando aulas com 70 estudantes de um pré-vestibular comunitário trouxe e traz aprendizados que ainda me afetam positivamente. Não só a experiência prática da docência, como também atuações em outros campos de voluntariado. Tudo isso construiu uma subjetividade interessada em biografias outras que buscam sonhos e um acolhimento. Sem dúvidas, fez da minha trajetória universitária uma história de práxis e sensibilidade. Hoje, enquanto gestora, lidando com juventudes universitárias, desejo o mesmo processo de crescimento que faz expandir a teoria e o ser e estar no mundo.

Para adentrar na discussão proposta, trago algumas referências para construir e embasar a narrativa de que a extensão universitária, principalmente através do voluntariado, tem implicação direta na formação integral do universitário. Começo compartilhando alguns aprendizados extraídos da palestra “JUVENTUDE/S: concepções, demandas e políticas públicas”, realizada em julho de 2018, em que a antropóloga Regina Novaes reflete o seguinte: para falar de “juventude”, é necessário se utilizar do plural, pois existem diferentes setores juvenis no mundo contemporâneo; bem como nos ajuda a compreender essa etapa da vida a partir do tempo presente e não no porvir, ou seja, juventude como um estado presente, com autonomia e emancipação. Se concluímos que todas as etapas da vida são de passagens, “então por que só a juventude ser pensada como transição?” (op. cit.). Na esfera política brasileira, o ser jovem se consolida como sujeito de direitos específicos através do Estatuto da Juventude, que se tornou lei em 2013. Outra referência à palestra diz respeito à necessidade de promover escuta e diálogo entre gerações e entre diferentes setores da juventude.

Segundo o documento “Evangelização da juventude: Desafios e perspectivas pastorais”, da Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB), o conceito de formação integral considera o sujeito jovem em sua totalidade, a partir das dimensões psicoafetiva, psicossocial, mística, sócio-político-ecológica e capacitação. Sugere pensar pedagogicamente em contexto à “sensibilidade da cultura jovem”, integrando o “racional com o simbólico, a afetividade, o corpo, a fé e o universo” (2007:65). Considera-se que as cinco dimensões compõem a relação complexa que o jovem tem com a vida. Talvez possamos até pensar que tais dimensões nos acompanham até a morte.

Pensar em um processo de formação integral é considerar a integração das dimensões supracitadas, bem como compreender o jovem como sujeito autônomo em um extenso e complexo conceito. Promover e garantir tal formação, alicerçada em valores humanitários, é pensar na construção de uma sociedade também mais ética, pois a juventude é o futuro de qualquer sociedade. Assim como respeitar a autonomia, possibilitar interações e permitir o acesso ao conhecimento, que, além de serem um direito constitucional, compõem o reconhecer à dignidade da pessoa humana.

E como toda essa discussão dialoga com a universidade brasileira? Dois documentos do Ministério da Educação (MEC) nos apontam a uma direção e também demonstram como a pauta ocupa espaço nas instâncias reguladoras nacionais, são eles: a Resolução n.º 2 e nº 7, ambas publicadas em 2018.

A primeira resolução é de 11 de setembro e institui as diretrizes da educação para o voluntariado na Educação Básica e Superior, e no Art. 2º declara que “o voluntariado se refere às ações de estudantes que, devido a seu interesse pessoal e espírito cívico, dedicam parte do seu tempo, sem remuneração, a diversas formas de atividades, organizadas ou não, de promoção de bem-estar social, ou outros campos demandados pela própria sociedade”. Os princípios consideram o voluntariado como uma participação cidadã e de responsabilidade cívica, social e de solidariedade, em vistas da transformação social, e também apontam como fomentam a cultura da paz, o respeito e a valorização da diversidade.

Enquanto a resolução n.º 7, publicada em 18 de dezembro, estabelece as diretrizes para a extensão na Educação Superior Brasileira, definindo os princípios, fundamentos e procedimentos a serem observados entre as instituições universitárias do país, incluindo cursos de graduação e pós-graduação. A extensão deve ser pensada com o terceiro pilar do ensino superior, juntamente ao ensino e à pesquisa, como uma articulação permanente. Constitui a interação dialógica da universidade com a sociedade, trocando conhecimentos sobre questões complexas contemporâneas, bem como coloca o estudante numa posição de autonomia e de saberes elegíveis, desenvolvendo-o de modo interprofissional e interdisciplinar.

O Art. 6º também nos traz um ponto a ser destacado sobre o voluntariado como sendo uma “contribuição na formação integral do estudante, estimulando sua formação como cidadão crítico e responsável”. Neste Art. algumas palavras e expressões-chave merecem destaque, como “estabelecimento de diálogo construtivo”, “interculturalidade”, “compromisso social”, “direitos humanos” e “princípios éticos”.

Nessa teia reflexiva trago Perrenoud (2002) que, apesar de discutir a formação docente como objeto principal de sua análise, nos permite expandir o olhar e compreender a importância da prática como meio pelo qual se desenvolvem habilidades que ajudarão não só os profissionais da educação na solução de problemas inerentes à sala de aula, como também outras áreas frente aos desafios contemporâneos. Deste modo, a prática, seja exercida através do estágio curricular ou do voluntariado universitário/extensão, permite que o estudante conforme saberes abrangentes, acadêmicos, especializados e oriundos da experiência, alargando seus repertórios e suas habilidades técnicas, sociais e subjetivas. Ou seja, “a competência profissional pode ser concebida como a capacidade de gerenciar o desvio entre o trabalho prescrito e o trabalho real” (Jorbert, 1998, 1999 aput Perrenoud, 2002:11).

Por fim, podemos influir com base nos teóricos e resoluções expostos, que o serviço voluntário é uma expressão da extensão universitária e representa um aspecto importante para a formação integral das juventudes. E a Pastoral Universitária Anchieta da PUC-Rio, através do seu programa de voluntariado, ocupa um espaço estratégico nesse desenvolvimento, oportunizando diálogo entre as potências juvenis, em um trabalho de rede no campus universitário da universidade, bem como com projetos parceiros que atendem diversos territórios e realidades socais. Essa troca enriquece ainda mais a sala de aula e contribui no alargamento da interação da universidade com a sociedade, fazendo com que se desenvolvam mutuamente.

Escrito por Angélica Castello Branco

Referencial do Tecendo Laços e graduanda em Ciências Sociais na PUC-Rio.

——————

Referências

BRASIL, Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Conselho Pleno. Resolução n.º 2, 11 de setembro de 2018. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/docman/setembro-2018-pdf/96311-rcp002-18/file#:~:text=existentes%20e%20futuros.-,Art.,Par%C3%A1grafo%20%C3%BAnico>. Acesso em: 18 ago. 2021.

BRASIL, Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Superior. Resolução n.º 7, 18 de dezembro de 2018. Disponível em: < http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=104251-rces007-18&category_slug=dezembro-2018-pdf&Itemid=30192>. Acesso em: 17 ago. 2021.

CNBB. Evangelização da juventude: Desafios e perspectivas pastorais. Documentos da CNBB n.º 85. São Paulo: Editora Paulinas. 2007.

NOVAES, Regina. JUVENTUDE/S: concepções, demandas e políticas públicas. Curso Juventudes e Educação: Identidades e Direitos. Instituto Unibanco e Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO Brasil). Julho, 2018. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=rCgub1qsoWA>. Acesso em: 17 ago. de 2021.

PERRENOUD, Philippe. A prática reflexiva no ofício de professor: profissionalização e razão pedagógica. Porto Alegre: Artmed, 2002

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *