Pentecostes: The Dark Side of the Moon



Suzana Regina Moreira

Pentecostes é a festa em que celebramos o derramamento do Espírito Santo sobre os apóstolos, quando se costuma celebrar também o início da Igreja. Muitos de nós já estamos familiarizados, e às vezes até cansados, de ouvir o trecho de Atos dos Apóstolos sobre esse episódio estranho em que línguas de fogo caem do céu sobre as pessoas reunidas e do nada elas começam a falar em outras línguas e os diversos povos da época começam a entender. Como entender Pentecostes atualmente?

Nossa cabeça hoje em dia funciona de uma forma muito diferente daquela época. Se ouvimos uma história, queremos saber direitinho os fatos, a realidade concreta, a probabilidade de ser comprovado cientificamente. Só que naquela época a intenção em contar uma história era de revelar um sentido mais profundo por detrás. Se a gente tenta ler os textos bíblicos de uma forma muito literal ou academicista, a gente corre o risco de perder a sensibilidade para o significado mais profundo, a mensagem por detrás das palavras escritas.

E o que Pink Floyd tem a ver com isso? Para quem não sabe, o título desta reflexão aqui, “The Dark Side of the Moon”, é um dos álbuns mais famosos dessa banda britânica que surgiu na década de 60. A capa do álbum virou emblemática com o triângulo e a luz branca refratada, famosa até hoje. Três pontos são interessantes para refletir sobre Pentecostes nessa relação – aparentemente não relacionada – entre o Espírito Santo e a banda britânica.

A década de 60

Os anos 60 foram um divisor de águas na história da humanidade. A nível global foi quando começaram a surgir as lutas pelos direitos humanos. Também foram surgindo os movimentos: Feminista, Queer, Negro, Ambiental; ao mesmo tempo que na área do saber começavam a difundir-se as filosofias da Libertação e Decolonização. Contudo, foi uma década muito conturbada também. Em nossa América Latina, foi o período marcado pelas ditaduras militares. Enquanto no Norte Global surgia o grito de paz e amor, no Sul Global tentavam calar as vozes que gritavam por ajuda e liberdade.

A nível eclesial é curioso perceber como foi um período divisor de águas também. Na Igreja Católica foi quando o Concílio Vaticano II foi convocado e realizado, na tentativa de fazer com que a Igreja voltasse a caminhar junto com a História, pois sua comunicação da Boa Nova estava engessada em noções, conceitos e estruturas dos séculos passados que já não diziam nada para o mundo contemporâneo. Foi quando começaram a ser realizadas as Conferências do Conselho Episcopal Latino-Americano, que determinou muito do que seria desenvolvido enquanto teologia e pastoral dali em diante. Mas não só a Igreja Católica começou a se despertar para a necessidade de uma contextualização melhor da teologia e da pastoral, outras denominações cristãs também. Enquanto pelo lado da Igreja Católica começava a surgir a Teologia da Libertação, pelo lado evangélico também surgia a Teologia da Libertação com suas respectivas referências. E surge também a Missão Integral, uma outra forma de fazer teologia crítica e social. As teologias globais começam a ser valorizadas, descentralizando o saber da Europa, assim como estava ocorrendo nas demais áreas, como Antropologia, Filosofia, História, e inclusive no desenvolvimento tecnológico e científico.

Os anos 60 foram um novo despertar da consciência humana. Um despertar tanto para as atrocidades que somos capazes de fazer, quanto para as novidades que somos capazes de criar. É também nessa época que surge o Movimento Carismático, primeiro com evangélicos nos EUA, depois com católicos nos EUA, e aos poucos em diversos países tocados por essa experiência de um novo Pentecostes. Às vezes temos a tendência de ver com muito preconceito o movimento carismático e pentecostal, devido à superficialidade com que nos deparamos muitas vezes, hoje em dia, nessas comunidades. Porém é importante lembrar essa origem histórica do movimento carismático e pentecostal, que foi imbuída de uma verdadeira busca por maior sintonia com a vontade de Deus, através da Palavra, discernindo a presença do Espírito em nós, para agirmos como Cristo, uns com os outros, e renovar a Igreja e o mundo.

Se olhamos para esse panorama da década de 60, com tantos avanços e renovações de diversas áreas e estruturas da humanidade, em todos os cantos do mundo, podemos sentir ecoar “O Espírito sopra onde quer” (cf. Jo 3,8). Se Cristo é nosso libertador, Aquele que nos tira da escravidão do pecado para a comunhão do Reino de Amor e Justiça, o Seu Espírito é também libertador para a comunhão de Amor e Justiça. E não há como restringir-se à Igreja. Esse ímpeto libertador da Divina Ruah se espalha e contagia todo coração humano que se dispõe a enxergar as estruturas de injustiça em que vivemos e as possibilidades de construção de uma sociedade melhor, mais justa, mais sustentável, mais equitativa.

Para os fãs de Pink Floyd a banda representava e representa muito desse ímpeto de libertação. Várias letras de suas músicas denunciavam aquilo que já não era aceitável na sociedade: o capitalismo doentio, o individualismo que nos isola uns dos outros e as pressões políticas e econômicas sobre indivíduos. Para nós que cremos na Divina Ruah, Libertadora, podemos dizer que Pink Floyd faz parte do sopro libertador Dela. O novo Pentecostes, hoje, já se manifestava nos anos 60: o sopro e fogo da libertação.

A rebeldia

A Divina Ruah, ou Espírito Santo, é a pessoa da Santíssima Trindade que mais nos escapa à compreensão. Sua plena liberdade no amor a torna imprevisível, surpreendente, e por isso teimosa e rebelde. Ao longo dos séculos, a Ruah é representada de diversos modos, enquanto Deus Pai e Deus Filho costumam ser representados como o homem ancião de barba branca e o homem de barba e feridas nas mãos, respectivamente, com poucas variações. Mesmo com nossa mania de querer colocar Deus em caixinhas, e categorizar e caracterizar muito bem cada uma das três Pessoas Divinas, a Ruah é a que mais nos vence em nossos racionalismos, demonstrando o quanto não basta a razão para entender Deus.

Pink Floyd também representa essa rebeldia. A rebeldia diante de um mundo e uma sociedade que não correspondem com aquilo que desejamos. A rebeldia de manter-se firme na denúncia das injustiças e na liberdade de gozar a vida, mesmo com tanta oposição. Denunciar as injustiças sem perder aquilo que nos dá vida e alegria é como uma atitude profética. Muitas bandas costumam ser conhecidas pelas gafes morais e pobres exemplos de estilo de vida – não entraremos nessa discussão. Mas é importante questionar se essas críticas feitas à vida de artistas não é mais fofoca e julgamento do que algo construtivo. De certa forma, quem goza a vida representa muito mais o Reino de Deus do que quem vive com desgosto.

Gozar a vida faz parte do dom libertador da Divina Ruah. É preciso, sim, rebelar-se diante de tudo que nos tira o gosto de viver e de aproveitar a vida. A rebeldia é condição necessária para nos tirar da inércia e agirmos como construtores do Reino de Amor e Justiça onde todos gozaremos sem fim. A mensagem de Amor-Justiça, que nós cremos ser inspirada pela Divina Ruah, transparece de diversos modos no mundo, inclusive onde a Igreja menos espera ou busca encontrar.

A luz da lua

Vários Padres da Igreja usaram do simbolismo da lua para descrever a identidade da Igreja. A Igreja não tem outra luz senão a de Cristo; ela é comparável à lua, cuja luz vem toda do sol (cf. Catecismo da Igreja Católica 748). A lua não contém luz por si mesma, mas é capaz de refletir a luz do sol, com variações dependendo de sua posição (lua crescente, minguante, cheia). Da mesma forma, a Igreja não contém a salvação e a graça por si mesma, mas é capaz de refletir a Cristo, com variações dependendo do quanto mantém seu foco no próprio Cristo.  A Divina Ruah, o lado escuro da lua que não vemos, mas que sabemos que existe, é o mistério que nos faz novas criaturas, coerdeiros com Cristo e cocriadores com o Pai. De fato, muito continua como mistério pois somente entenderemos quando chegarmos na plenitude do Reino, porém não é um mistério fechado ou mágico, mas aberto e efetivo, que continuamente se revela e desvela em nossa vida concreta, mesmo que ainda não compreendamos em sua integralidade. A dinâmica da Ruah na Igreja nos insere no mistério do Amor que livremente nos chama e entrega sua vida por nós, o Amor que nos ilumina e assim nós podemos resplandecer sua luz ao mundo.

Mas além de pensar no simbolismo da lua, olhando para a capa do álbum “The Dark Side of the Moon” [O lado escuro da lua], podemos ainda fazer uma última reflexão. A luz branca, que na tradição cristã é usada para simbolizar o puro e o divino, ao ser refratada, se desdobra nas cores do arco-íris, como vemos na imagem. Quando tentamos encaixar nossas compreensões sobre Deus, em discursos e conceitos essencialistas e hegemônicos, falhamos em reconhecer a diversidade presente na Trindade. Nossa linguagem sempre será limitada para expressar a divindade. O que o arco-íris nos provoca é o reconhecimento do dom da pluralidade que a Divina Ruah sustenta na terra, a pluralidade de toda a criação e a diversidade das pessoas humanas. Se tentarmos encaixar as pessoas dentro de padrões pré-determinados daquilo que achamos que deve ser um “modelo ideal” de ser humano, falhamos em reconhecer a “luz branca” presente em cada um de nós como sua refração.

A Igreja deve manter sua pertinência no momento histórico em que vive e deve buscar manter-se fiel àquilo que não depende de aspectos cultuais e temporais: a pessoa de Jesus Cristo e a manifestação diversa do Espírito Santo já nas primeiras comunidades cristãs. Jesus é o nosso princípio e fundamento, portanto, se Cristo é relação de Amor e Justiça, nós Igreja também devemos ser uma relação do Amor que transborda, que atinge e inclui a todos. A Divina Ruah é a força que sustenta toda a vida e que gera nova vida; aquela que possibilita escancarar as portas amedrontadas dos corações dos discípulos e fazê-los comunicar a Boa Nova para todos os povos. A promessa e a garantia de um Reino de Amor-Justiça, proclamada por Jesus Cristo, é para todas, todos, todes, e cabe a nós nos deixarmos ser levados pela Ruah onde quer que ela queira.

 

Suzana Moreira é mestra em Teologia Sistemático-Pastoral e bacharel em Teologia pela PUC-Rio. É Animadora Laudato Si’ pelo Movimento Católico Global pelo Clima e integrante da TeoMulher, rede de teólogas e cientistas da religião feministas. Trabalha como tradutora e intérprete de português, inglês e espanhol, e pesquisa sobre teologia latino-americana, teologia do corpo, ecoteologia e teologia feminista. Atua nas redes sociais (Instagram, Facebook, YouTube, Twitter) como Suzi Teóloga para divulgar conteúdo teológico de maneira acessível.

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